12.2.11

"Coisas com Sabor a outras coisas!"

        Quase todas as coisas sabem a outras coisas, o que acaba por ser uma absoluta falta de respeito pela dignidade das coisas. Neste momento, por exemplo, é quase impossível comprar um pacote de batatas fritas que saiba a batatas fritas. Há batatas com sabor a queijo, a presunto, a cebola, a alho, a ervas aromáticas e a churrasco. É preciso procurar bastante essa raridade que são batatas com sabor a batata.
Não vale a pena chorar pelas batatas porque não são as vítimas isoladas da praga. Há café com sabor a anis, a baunilha ou a canela, e água com sabor a limão, a morango, a pêssego, a framboesa ou a jinseng. O caso da água é particularmente escandaloso, na medida em que se trata de um líquido incolor, ionodoro e insípido. Se tiver cor, cheiro ou sabor, deixa de ser água. Aquilo que nos vendem é, portanto, uma fraude engarrafada. "Água com sabor" é uma contradição intrinseca aos termos em que é expressa. Não é modernidade, é parvoíce. Até porque a água com sabor já foi inventada a alguns anos, no Oriente. Parece que se chama "chá".
         O flagelo ameaça alastrar a todo o lado. Não é gosto refinado: é javardice. Sabem em que outro sítio é que se encontram morangos com malaguetas, água choca e batatas com sabor a fumo?? No balde dos porcos. Foi nisso que se transformou a nossa alimentação. Em lavagem. E alguém tem de fazer alguma coisa, antes que apareça o espareguete com sabor a leite condensado. Está para breve.

Ricardo Araújo Pereira